00:00:00 CANTEMOS PARA O SOL NASCER – Por Marcia Dias | Bastidores da Notícia

Em meus momentos de refrigério da alma, presenteei-me com uma pausa para ler Rubem Alves, autor de livros de filosofia, teologia, psicologia e de histórias infantis, mineiro gente boa, como muitos que conheço! Traz consigo e transpõe em seus textos seu arcabouço lapidado a duros golpes das verdades humanas. Seu olhar sublime nos permite sentir a leveza da compreensão adquirida pelo viés de vida, de fé, de amor.

O livro que por aquele momento dialogava comigo era “A grande arte de ser feliz” e só em ler o título já somos movidos pelo desejo abrasador de tornar-se artista com este talento: o talento de ser feliz! E na aleivosia da arte somos revelados em nossas verdades e isso é muito interessante: é na mentira que somos revelados! Dentre muitas conversas boas que tive com Rubem Alma (ele fala tanto a mim, que resolvi dar esta acunha a ele), em uma delas, ele faz memória a estória do galo que cantava para fazer o sol nascer.

índiceDe forma resumida, digo que esta retrata a falta de modéstia da visão de um galo sobre si mesmo. Este pobre galo cresceu com a ideia de que o sol nascia só porque ele cantava! Acho que ele nunca tinha ouvido a velha frase “ O sol nasce para todos”. A triste noção acontecera com seu galo-avô, seu galo-pai e provavelmente seria assim com seu galo-filho. Seria, do futuro do pretérito, um tempo futuro, entretanto que nos prende a condições passadas.

As condições passadas que prendiam este galo e seus antepassados era a compreensão de sua própria existência! Entender nossa existência nos leva também a enxergar um lado funcional da vida. Para que eu sirvo? O galo entendia que servia para fazer o sol nascer.

Alguns nutriam uma exarcebada admiração ao galo que findaria logo logo com a descoberta da verdade. Todavia este poder extraordinário provocava também outras reações. Galos em desacordo cantavam cada um em seu galinheiro, mas achavam-se dignos de exclusividade no canto. Certezas proeminentes de que suas partituras eram que faziam o sol nascer.

Enfim, aquele velho conceito de que as minhas verdades são as únicas verdades. E foi neste anseio em fazer o sol nascer que um galo dormiu para acordar bem cedo. E levado por um sono cheio de pretensão, o galo adormeceu, diferente dos outros dias, caiu em um sono profundo, aquele denominado por muitos como sono dos justos, neste caso, sono dos pretensiosos e por uma ironia do destino, foi o galo quem acordou no outro dia com um som, nada de canto, era o riso das outras aves. E grande foi o susto ao ver que o sol já havia nascido. Foi então que descobriram que o sol nascia sem que o galo cantasse.

De forma surpreendente, tirando o fato de sentir vergonha do riso das demais aves, o galo foi tomado por um sentimento de liberdade, pois viu que não era responsabilidade sua fazer o sol nascer. Poderia dormir tranquilo, desafinar o canto, e até mesmo não cantar que o sol iria nascer assim mesmo.

Ter a errônea impressão de que somos responsáveis pela aurora do dia é algo tão recorrente em nossa vida. Almejamos um olhar de admiração dos outros. Há uma constante necessidade de estarmos no cerne do poder. Queremos cuidar do galinheiro, ter nossa voz reconhecida, ser responsável por algo ou alguém. Isso nos massageia o ego, mas também torna-se um fardo pesaroso. Somos obrigados, por nós mesmos, a termos comportamentos, atitudes, para que outros admirem “nossos cantos”. Mas lá no fundo acreditamos mesmo que somos tão importantes a ponto de sermos a razão do sol nascer? Sim! Somos muitos importantes! Todavia não a ponto de que as coisas só caminhem se nós estivermos à frente.

É algo negativo se as responsabilidades nos tiram o direito de sermos quem somos! Da forma impositiva, o canto do galo nunca poderia ser apreciado. Mas lembremo-nos de que o canto só será apreciado se ele estiver rodeado de “aves” que apreciem as melodias em comum. É necessário que tenhamos consciência de nossa importância na vida das pessoas, porém isso não pode ser algo compelido.

maxresdefaultA relação gratuita, livre de obrigações, de inópias faz muito bem ao coração. A relação que o galo tinha com o sol não o permitia contemplar, de verdade, a beleza do raiar do dia. Mesmo que ele pensasse que fosse o responsável por tudo. Seu canto era uma obrigação, não uma oferta. Quantas vezes ofertamos a palavra, o olhar, o gesto, ou seja, o melhor de nós, sem a essência necessária para que tais ofertas sejam milagres na vida dos outros. Chega uma hora em é necessário parar e nos perguntar: sou responsável para fazer o sol nascer? Não sou! Mas posso, na minha liberdade, contemplar este brilho e oferecer a meu canto a alguém, sem muitos alardes! Canto este que é entoado pelas boas ações, pela generosidade, pela convivência.

Este canto, sem pretensões, fará sim um sol nascer. O sol da esperança por um mundo cheio de pessoas com menos ambições, sem orgulho, sem arrogâncias, desprovidos do desejo de roubar o brilho do sol. Desejamos um sol que não tenha a obrigação de aparecer, mas sim que exista como algo constante em nossas vidas. Cantemos para este sol nascer.

Autora – Marcia Dias, formada em Letras, Mestra em Ciências da Linguagem e professora da Universidade Federal de Rondônia, Campus de Guajará-Mirim.

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