Estrada de Ferro Madeira–Mamoré: Fim da linha | Bastidores da Notícia

NG - Igreja de Santa Terezinha

É tempo de chuva. Com o Rio Madeira correndo cheio sobre a planície amazônica, é possível ouvir suas águas a certa distância. Enquanto caminhamos mata adentro, alguém sussurra atrás de nós. “Aqui”, diz Lord Jesus Brown, um senhor negro de quase 2 metros de altura. Ele para diante de um pedaço de concreto cravado no solo. É a lápide de um estrangeiro morto em 1910. Tentamos ler seu nome, mas as letras estão muito esmaecidas. Não faz diferença. “O povo morria igual a bicho”, diz Lord. “Muitos acreditavam que este lugar era amaldiçoado.”

O cemitério da Candelária fica a poucos quilômetros do Centro de Porto Velho, a capital de Rondônia. Aqui jazem mais de 1 500 homens que morreram entre 1907 e 1912, durante a terceira e última tentativa de construção da lendária Estrada de Ferro Madeira-Mamoré. Somando esse contingente aos que pereceram antes, o total de mortos beira os 10 mil. O matagal já ocultou quase todas as sepulturas desses aventureiros, vindos de países tão diversos quanto Irlanda e Índia, Alemanha e Barbados, Estados Unidos e Grécia.
É incrível que se tenha conseguido abrir um caminho de 366 quilômetros em uma das regiões mais inóspitas do planeta para tudo se perder em tão pouco tempo. Feita para escoar a imensa produção de borracha amazônica, que abasteceu o mundo e permitiu o bom da indústria automobilística até o começo do século 20, a Madeira-Mamoré demorou quatro décadas para ficar pronta. Tanto tempo que, ao ser concluída, em 1912, o ciclo da borracha na América do Sul já estava em declínio.
 O mercado migrou para as colônias britânicas da Ásia após os ingleses levarem para lá 70 mil sementes da Hevea brasileira, das quais 2 800 germinaram. Sessenta anos depois de inaugurada, a estrada de ferro foi desativada pelo governo militar, que construiu uma rodovia para substituí-la e destruiu boa parte do maquinário e dos documentos históricos. Rondônia chora até hoje o fim da ferrovia. 
Todos lamentam que ela tenha sido fechada, todos gostariam que ela um dia voltasse. As pessoas recordam o trem avançando sobre os trilhos, cortando a floresta: as lembranças mais singelas parecem ser as mais marcantes. Quando a via completou 100 anos, em 2012, uma das locomotivas foi preparada para apitar e soltar fumaça, num gesto simbólico. Muitos foram às lágrimas.


 
Top